Talvez a palavra que possa definir Fabiano Paloschi Ferrari seja persistência. Filho de agricultores, encontrou no estudo contínuo e diversificado a chave para mobilidade social – isso, sem abandonar as suas origens. Portador de extensa formação, Ferrari, como é conhecido pela imprensa e pelos empreendedores, é formado técnico em agropecuária e em transações imobiliárias. Tem licenciatura em Filosofia pela Unisinos, é bacharel em Geografia e pós-graduado em Geoprocessamento pela Ulbra e mestre em Geologia pela Unisinos.
Foi aos 31 anos que Fabiano Paloschi Ferrari foi nomeado vice-presidente de serviços da Associação do Comércio, Indústria e Serviços de Carlos Barbosa, a ACI. Na época, a presidente da entidade, Nadir Debenetti Baseggio, exercia o mandato no biênio 2011 – 2012. Quando assumiu a presidência da entidade, no dia 3 de janeiro de 2013, tomou medidas consideradas drásticas, porém necessárias para tirar a ACI do vermelho.
Hoje, aos 39 anos, sendo oito deles ligado à ACI e seis deles como presidente, Ferrari deixa a entidade com a sensação de dever cumprido e o aviso: vai se desligar totalmente da entidade que ajudou a projetar em nível estadual.
Revista ACI: Fabiano, fale um pouco da sua trajetória como vice-presidente de serviços da ACI.
Fabiano Paloschi Ferrari: Comecei na ACI como vice-presidente de serviços nomeado pela Nadir Debenetti Baseggio, aos 31 anos. Na gestão, busquei um hotel para Carlos Barbosa. Fiz as primeiras negociações com o pessoal do Ibis. Tentei convencer investidores da importância de Carlos Barbosa no turismo. Hoje, o hotel está prestes a ser inaugurado. Participei também da diretoria da 3ª edição da Expo Carlos Barbosa, em 2012. Durante minha gestão, o trabalho de incentivo ao turismo continuou. Criamos e estimulamos o crescimento o Recanto Bergamasco e também do L’Amore di Colonia, roteiros rurais que valorizam as belezas do interior.
Revista ACI: Dois anos depois, você assumiu a presidência da entidade. Como foi esse desafio?
Fabiano Paloschi Ferrari: Fui indicado pela Nadir, em uma reunião com a diretoria, com os vice-presidentes. Montamos uma equipe e em um jantar da ACI foi feita a eleição. Dia 4 de janeiro de 2013 fiz a primeira reunião e minha primeira providência foram as demissões. A ACI ia apresentar o resultado financeiro do ano como negativo. No levantamento que fiz ainda como vice, constatei que isso seria sistêmico, iria se repetir durante anos. Isso porque a receita não era alta e as despesas haviam aumentado demais em 2012. Nessa pré-análise constatei que deveríamos cortar gastos de maneira forte. Baseado no estatuto, que me concedia esse direito, fiz as demissões. Ao total foram 10 na minha gestão, sendo cinco delas nesse primeiro momento.
Revista ACI: As transformações são percebidas a olhos nus. O processo de cortes, de mudanças geraram resultados a partir de qual momento?
Fabiano Paloschi Ferrari: Começamos a emitir ordens de compra e instituímos um sistema de licitação, no qual os associados podem participar e o orçamento mais baixo executava o trabalho. Fizemos isso com bancos, internet, fornecedores de papel, em todos os níveis. Fomentamos a concorrência e isso fez despencar as despesas. Digitalizamos a entidade, foram comprados softwares de gestão interna, um procedimento no qual as cobranças eram feitas via banco, sem precisar ter uma pessoa da entidade cobrando na porta do associado. Começamos também a focar no resultado: as feiras deveriam ficar no 0 a 0 ou no positivo. Todo esse ajuste não foi fácil. São mudanças, os resultados demoram para acontecer. No nosso caso, foram seis meses depois. Saímos, no período de um semestre, de uma situação operacional de R$ 30 mil negativo para mais de R$ 500 mil positivo. Então, a mudança teve um efeito muito forte. No final do primeiro ano de gestão tivemos mais de R$ 500 mil positivo, sem ajuste de mensalidade - com exceção de dois momentos de inflação, ela continua igual.
Revista ACI: A relação com o associado sofreu uma transformação nesses anos. Ela está mais próxima e transparente. Que papel tem o associado hoje na entidade?
Fabiano Paloschi Ferrari: Quando eu assumi, tínhamos 600 associados. Fizemos uma “limpa”, cortando inadimplentes, quem atrasasse Unimed, Telefonia. Então, houve uma redução em um primeiro momento. Hoje, temos cerca de 780 associados em uma relação bem estreita. Nos primeiros dois anos, introduzimos a ideia do pertencer do associado. Ele tem poder. O sucesso de uma entidade é essa força, que também foi concedida através da assembleia. Estipulamos o critério de que um associado significaria um voto, independente de sua situação financeira. O que deu força para as mudanças que hoje se vê na ACI foi justamente o papel de quem participa da nossa entidade. Foi através dessa força que tive pressão para continuar um segundo mandato. Por causa do associado, conseguimos comprar a terra. Eu, como presidente, colocava a sugestão em um debate, em um conselho, mas sempre foi ele quem disse “sim”. Porque eles que têm a palavra final. Quem fez as mudanças, quem comprou a terra, foi o associado. Foi ele que me disse “ok, você será o meu representante nessa entidade”. Isso faz com que a entidade fique mais forte economicamente, socialmente e integramos a ideia de que o associado é importante. Toda essa gestão gerou uma autoestima para as pessoas e elas começam a se sentir pertencentes à entidade.
Revista ACI: Logicamente, nesse papel de fortalecimento, entram as Feiras.
Fabiano Paloschi Ferrari: No primeiro mandato criamos a Feira de Oportunidade de Negócios. Na época, o Tarso Genro, que era governador, veio visitar o evento – ele nunca tinha vindo a Carlos Barbosa. No segundo mandato continuamos o trabalho de renovação, criamos a Feira do Bem-Estar, a FeiraTec, a segunda edição da Feira de Oportunidade de Negócios e também a Expo. Enxergamos as feiras como uma das melhores formas de fomentar o associado, dele expor, mostrar o seu trabalho, o seu serviço, com pouco gasto, mas com oportunidade de experiência dele com o cliente dele, com um aumento de autoestima. Isso foi funcionando e tivemos uma vitória na parte jurídica referente a um recurso no INSS, no valor de R$ 2milhões. Esse dinheiro entrou no nosso caixa e com mais R$ 1milhão que tínhamos, começamos a pensar na aquisição da terra.
Revista ACI: A ACI também estreou seu relacionamento com entidades representativas no Rio Grande do Sul. Como isso traz benefícios para a entidade?
Fabiano Paloschi Ferrari: Somos parte hoje da Federasul, Femicro, CICSerra e um grupo de trabalho com CIC Bento, Garibaldi e Barbosa também. Estamos nessas quatro organizações, envolvendo entidades que defendem pequenos e médios empresários, ampliando a nossa visão com isso em nível estadual. Estamos em contato com empresários, políticos, colocamos em pauta questões de nossa entidade que podemos utilizar. Tudo isso faz com que não fiquemos somente local, mas regional e estadual. Converso com entidades de Bagé, Cruz Alta, Canela, Gramado, Rosário do Sul, Pelotas, Rio Grande. É Carlos Barbosa que está dentro do movimento empresarial. Sou o único conselheiro da Serra Gaúcha, temos participação na diretoria, podemos dar a nossa voz e dialogar com outras entidades.
Revista ACI: Você foi reeleito duas vezes, exercendo um mandato total de seis anos. A primeira reeleição foi sem concorrência e a segunda teve Chapa 2, em 2016. Como você e o associado receberam isso?
Fabiano Paloschi Ferrari: Do segundo para o terceiro mandato, teve Chapa 2. Depois da compra da terra, depois de termos feito tanta coisa. Para mim, foi maravilhoso. Mostrou maturidade e a evolução da entidade. Conseguimos projetar a entidade e ela foi projetada, teve importância, debate, coisas novas. Por isso que, quando tivemos a Chapa 2, foi um episódio feliz, que mostrou que era o momento de colocar à prova todas as realizações dos últimos quatro anos. Foram 177 votos para a Chapa Um, da situação, contra 106 da Chapa Dois. Foi uma das maiores assembleias que tivemos. Mais de 400 pessoas. Pessoas de fora de Carlos Barbosa vieram votar. O maior trunfo dos seis anos de gestão, no qual estou concluindo agora, foram as assembleias, a participação do associado. Isso é fantástico.
Revista ACI: Foram seis anos de mandato, com desafios, elogios e críticas. Como manter a convicção diante de medidas reprovadas e olhares críticos à gestão?
Fabiano Paloschi Ferrari: Eu sempre gostei da crítica, eu adoro ser criticado. É um sinal que estamos no caminho certo. A crítica constrói até mais. É necessário entender as pessoas, todos temos que crescer juntos para que as ideias amadureçam na cabeça de todo mundo e se tornem realidade. As críticas servem para dar esse tempo, mas eu sempre estive convicto de tudo. Na minha formação, tive conhecimento em associativismo, que me oportunizou entender como funciona uma entidade. Repliquei minhas experiências para dentro da ACI. Senti dificuldades, com certeza, mas, quanto ao meu foco, nunca tive dúvida. Eu estava convicto do que tinha que fazer, estava claro. Eu vim com uma preparação, não caí de paraquedas na ACI. Eu já pesquisava, viajava. Fui seminarista, e visitava as comunidades carentes em Curitiba. Conseguia dinheiro em ONGs para montar fábricas de corte e costura, em uma situação bem precária. Aprendi que não era minha vontade que tinha que ser implantada, tinha que desenvolver de forma pedagógica que as pessoas queriam sair daquela situação. Isso leva a tempo, o tempo de tornar-se igual, falar de forma mais simplória. E é isso que faz a ACI, os dirigentes devem acreditar no associado, a partir daí, a entidade só avança.
Revista ACI: O que o próximo presidente da ACI irá encontrar?
Fabiano Paloschi Ferrari: Ele vai encontrar uma ACI com quase R$ 300 mil em caixa, uma ACI com ISSO 9001, bem claro, com funcionários super treinados e experimentados, uma entidade com muito crédito, uma infraestrutura para fazer as feiras, a possibilidade de fazer muitos outros eventos. Vai encontrar uma associação que fomente o empreendedorismo através de feiras, palestras, cursos. Desenvolvemos parcerias com muitas empresas, escolas, professores. Em um momento de crise como nós passamos, ajeitamos a entidade e temos um patrimônio que triplicou depois de seis anos. Preparamos a ACI para a crise em 2013. Fizemos todos os ajustes para preparar a entidade para os momentos difíceis que viriam, em 2014, 1015 e 2016. A situação financeira ajustada em 2013 auxiliou muito para que tivéssemos segurança para adquirir em 2015 a área de terras. Em termos de imagem da ACI, nos últimos 6 ou 5 anos, houve uma explosão da nossa marca. Começamos a ser uma entidade que faz a diferença, seja no comércio, na indústria, no serviço. Claro que pode ser feito mais, mas uma entidade também tem o seu limite. Começamos a fomentar ideias para que o público possa mudar sua mentalidade. É interessante perceber isso.
Revista ACI: Qual a sensação de desvincular sua imagem da ACI depois de oito anos?
Fabiano Paloschi Ferrari: A minha sensação é de dever cumprido, uma sensação de formatura (risos). O que eu aprendi, não tem explicação. Meu trabalho de conclusão foi a ACI, as assembleias. Só conseguimos fazer as mudanças por causa do associado, do povo, do apoio.
Revista ACI: E como será o processo de transição?
Fabiano Paloschi Ferrari: Vou sair completamente fora da ACI. Um ex-presidente deve ser benéfico ou não para a entidade. Deve se dar espaço na ACI para o novo presidente e suas eleições. A transição será muito tranquila da minha parte, eu não quero me envolver nas novas chapas que serão feitas, é preciso ter uma independência. A ACI está muito madura, seja quem assumir, fará muito sucesso.
Revista ACI: Para finalizar, quais os projetos futuros de Fabiano Paloschi Ferrari?
Fabiano Paloschi Ferrari: Vou me dedicar completamente à minha empresa. Tenho muitos projetos, com certeza irei me dedicar a isso.